Um estudo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) aponta que mais da metade das vítimas de feminicídio na região nos últimos dez anos já haviam sofrido violência doméstica antes de serem assassinadas. Desde 2015, quando a Lei do Feminicídio entrou em vigor, até agosto de 2025, foram registradas 226 mortes de mulheres no DF. Dessas, 144 (64%) tiveram histórico de agressões domésticas prévias, mas apenas 48,1% delas formalizaram denúncias por meio de boletins de ocorrência ou depoimentos judiciais. Isso significa que 16% das vítimas agredidas em casa não registraram as violências, o que evidencia uma subnotificação significativa. De acordo com o levantamento, essa lacuna é um “fator crítico na prevenção do feminicídio”, destacando a necessidade de denúncias contra agressores e uma atuação mais sensível dos órgãos de proteção, que devem considerar relatos informais e sinais indiretos de risco.
O mesmo estudo analisou os perfis dos autores dos crimes, identificando que, de 220 homens indiciados, pelo menos 36,4% estavam sob efeito de drogas ilícitas no momento do feminicídio, com destaque para cocaína (54%) e maconha (38%). Além disso, 31,4% declararam uso de álcool durante o ato. O delegado Marcelo Zago Ferreira, coordenador da câmara técnica de monitoramento de homicídios e feminicídios da SSP-DF, ressalta que esses percentuais representam um mínimo, pois há subnotificação também nesse aspecto, já que nem sempre é possível confirmar o consumo de substâncias durante as investigações. “A gente parte de um número mínimo. No estudo, no mínimo 31% estavam sob efeito de álcool e no mínimo 38% sob efeito de drogas. Mas esse percentual pode ser maior, porque muitas vezes essa informação não é coletada em nenhuma fase do processo”, explica Ferreira.
Em 2025, o Distrito Federal registrou 26 feminicídios, superando os 22 casos de todo o ano de 2024, conforme o Painel de Feminicídios da SSP-DF. Até 19 de dezembro, 22 foram confirmados e quatro estão em análise. O caso mais recente ocorreu em 5 de dezembro, quando a cabo Maria de Lourdes Freire Matos, de 25 anos, foi morta a facadas pelo soldado Kelvin Barros da Silva, de 21 anos, no 1° Regimento de Cavalaria de Guardas, no Setor Militar Urbano. O agressor provocou um incêndio no local e foi preso preventivamente após fuga.